quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

De matuto e matutar




Muito se pode dizer de Ubaldo. Direi, entretanto, o que me parecer conveniente e justo. Foi-se, em 1992, para a Capital. Não alcanço a lonjura que nos separa. Por vezes, chego mesmo a crer que está morto. Pois de uma voz se faz gente? Às segundas-feiras, liga-me e oiço sua voz. Mas de um retrato é possível dizer que é homem?, e da voz mediada por um aparelho com especificações desconhecidas por mim? Então nada posso asseverar, pelo menos quanto a isto -- ao fato de estar ele vivo ou morto. 

Quanto ao lugar, ora diz estar em Mogi Mirim, ora em Bauru e às vezes em Rio Claro. Quando diz estar em Rio Claro, acorro para o nosso Rio Claro e não o vejo. Tem ele, agora, uma voz estranha; digo o mesmo para Ubaldo. Replica assim: "você que é matuto, e é da sonoridade de sua voz que fazemos nós chacota". Não compreendo perfeitamente o significado do seu dizer, mas reparo agressividade; e quando me chama de "matuto" é porque sou de muito pensar, dizer e escrever? Jacinta, a recepcionista do posto telefônico, tampouco tem respostas. 

Quando respondo que aqui faz sol, ele sorri; diz que lá não faz sol. Então, questiono:  o sol que banha aqui é o mesmo que banha aí, Ubaldo! E ele sorri com mais valentia e acrescenta: "aqui tem prédios altos e trem e metrô e muitos automóveis; tem japonês e chinês e muitas mulheres". Ficaria contente em responder para que ele ouvisse, porém respondi mudo: pois por esta banda se comenta que a vida na Capital é menor. E dizem visto que tem menos pássaros, menos bois, menos familiares, menos terra, menos vista. 

O meu dizer é doce, sei porque é assim que experimento na língua; o de Ubaldo é cortante porque assim me chega aos ouvidos; será que tem ele na boca o gosto do caju verde?, se sim, como suporta? De todo modo, o "outro" Ubaldo também é belo, e vivo; sem Ubaldo, havia uma coisa a menos no mundo.
 

Nenhum comentário:

Postar um comentário