Muito se pode dizer de Ubaldo. Direi,
entretanto, o que me parecer conveniente e justo. Foi-se, em 1992, para a
Capital. Não alcanço a lonjura que nos separa. Por vezes, chego mesmo a crer
que está morto. Pois de uma voz se faz gente? Às segundas-feiras, liga-me e
oiço sua voz. Mas de um retrato é possível dizer que é homem?, e da voz mediada
por um aparelho com especificações desconhecidas por mim? Então nada posso
asseverar, pelo menos quanto a isto -- ao fato de estar ele vivo ou morto.
Quanto ao lugar, ora diz estar em Mogi Mirim,
ora em Bauru e às vezes em Rio Claro. Quando diz estar em Rio Claro, acorro
para o nosso Rio Claro e não o vejo. Tem ele, agora, uma voz estranha; digo o
mesmo para Ubaldo. Replica assim: "você que é matuto, e é da sonoridade de
sua voz que fazemos nós chacota". Não compreendo perfeitamente o
significado do seu dizer, mas reparo agressividade; e quando me chama de
"matuto" é porque sou de muito pensar, dizer e escrever? Jacinta, a
recepcionista do posto telefônico, tampouco tem respostas.
Quando respondo que aqui faz sol, ele sorri;
diz que lá não faz sol. Então, questiono:
o sol que banha aqui é o mesmo que banha aí, Ubaldo! E ele sorri com
mais valentia e acrescenta: "aqui tem prédios altos e trem e metrô e
muitos automóveis; tem japonês e chinês e muitas mulheres". Ficaria
contente em responder para que ele ouvisse, porém respondi mudo: pois por esta
banda se comenta que a vida na Capital é menor. E dizem visto que tem menos pássaros,
menos bois, menos familiares, menos terra, menos vista.
O meu dizer é
doce, sei porque é assim que experimento na língua; o de Ubaldo é cortante
porque assim me chega aos ouvidos; será que tem ele na boca o gosto do caju
verde?, se sim, como suporta? De todo modo, o "outro" Ubaldo também é
belo, e vivo; sem Ubaldo, havia uma coisa a menos no mundo.
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