segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Canção de ninar

A caminhada descompromissada de ontem levou Gilberto a um evento público de som estridente. Por precaução manteve distância considerável do furor. Embora de condição financeira favorável obtida com o casamento, Gilberto – assobiando e indicando – decidiu organizar o trânsito e acomodar os automóveis em local seguro. Ali fez outros negócios que em verdade não eram inicialmente seus, mas se tornaram. 

Novamente disposto Gilberto tomou o caminho de volta ao lar. Faltando um km traçou as mesmas ruas e naturalmente também a rua Gonçalo, que é escura e guardada por um segurança. O segurança está sempre sentado e a fumar e nunca Gilberto teve o privilégio de travar qualquer diálogo.  Deseja boa-noite quando o encontra mas nada é audível em seguida. Talvez o pobre seja deveras surdo – pensa Gilberto.

Já ao final da Gonçalo foi impedido de prosseguir. Alguém de forma brusca gritava e esperneava a sua frente pedindo socorro. Pelas afirmações e voz, Gilberto intuiu que fosse uma mulher. Ela dizia estar grávida, dizia ter sido roubada. Dizia muitas coisas e mais da metade Gilberto não compreendia. Retirou então algo do bolso, algo que julgava ser do interesse daquela mulher.  O canivete, que somente era usado para descascar laranjas e ainda com penar, foi introduzido no busto daquela que chorava. 

Na primeira penetração do canivete sentiu resistência e julgou falta de lubrificação. O problema foi extinto, entretanto, no segundo golpe. A moça enfim caiu e nada mais dizia.  O guarda se mantinha sentado e só era perceptível o seu posicionamento pela chama do cigarro. 

Nádia estava acordada porém não chorava. Gilberto pegou-a no colo e cantarolou “Se essa rua fosse minha”, canção que trazia na memória e do berço.

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