Estou vivendo em Stanley, mamãe. Aqui faz frio e as casas são
pequenas e coloridas. Hoje trago comigo cortes e manchas na pele, mamãe. Ontem,
na praça central da cidade, urinei em camélias e gardênias. Os namorados da
praça ficaram ofendidos e apanhei. Apanhei como um cachorro que bisbilhota as
migalhas de um sovina. Apanhei de
outros e nunca apanhei da senhora. Se estivéssemos naquela praça e um louco ou
atrevido urinasse, também o surrava. Mas é essa voz que me obriga, mamãe. Essa
voz que me afastou da terra em que nunca apanhei.
Sabe os médicos que vestem branco? Que falam como médicos, se
vestem como médicos? Pois é, eles perguntam muito, mamãe. Mas é compreensível
que eu pouco fale. Tenho vergonha da minha fraqueza. E eles também não
entenderiam. Já não são homens. São médicos! Agora, antes de dormir, tomo
três doses de uísque e um psicotrópico. Lembra que aí eu tomava somente duas
doses? Os psicotrópicos impedem que sonhemos, mamãe. Percebe como é grave? Há alguns dias venho pesquisando a mim mesmo. Se acontece comigo, por qual razão não aconteceria igualmente com outros homens? Uma verdade universal, sim, senhora. Eu poderia escrever sobre isso: as farmacêuticas ficariam arruinadas. Estou sorrindo, mamãe, sorrindo do que acabei de escrever. Somente a senhora pode ler o que escrevo sem indiferença, não é mesmo, mamãe?
Comentei que fui preso ontem depois de apanhar? Passei poucos
horas. Não se preocupe. Inicialmente os policiais foram educados, porém
um me chamou de burro. Sabe, mamãe, não sou burro. Li Hemingway, Neruda e Pasternak. Hemingway disse: “durante o dia,
nada mais fácil do que mostrar que não se dá importância, mas, à noite, é
diferente.” Não é bonito, mamãe?
Que estarrecedor! Sublime.
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