segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Mães são infelizes



Estou vivendo em Stanley, mamãe. Aqui faz frio e as casas são pequenas e coloridas. Hoje trago comigo cortes e manchas na pele, mamãe. Ontem, na praça central da cidade, urinei em camélias e gardênias. Os namorados da praça ficaram ofendidos e apanhei. Apanhei como um cachorro que bisbilhota as migalhas de um sovina. Apanhei de outros e nunca apanhei da senhora. Se estivéssemos naquela praça e um louco ou atrevido urinasse, também o surrava. Mas é essa voz que me obriga, mamãe. Essa voz que me afastou da terra em que nunca apanhei.

Sabe os médicos que vestem branco? Que falam como médicos, se vestem como médicos? Pois é, eles perguntam muito, mamãe. Mas é compreensível que eu pouco fale. Tenho vergonha da minha fraqueza. E eles também não entenderiam. Já não são homens. São médicos! Agora, antes de dormir, tomo três doses de uísque e um psicotrópico. Lembra que aí eu tomava somente duas doses? Os psicotrópicos impedem que sonhemos, mamãe. Percebe como é grave? Há alguns dias venho pesquisando a mim mesmo. Se acontece comigo, por qual razão não aconteceria igualmente com outros homens? Uma verdade universal, sim, senhora. Eu poderia escrever sobre isso: as farmacêuticas ficariam arruinadas. Estou sorrindo, mamãe, sorrindo do que acabei de escrever. Somente a senhora pode ler o que escrevo sem indiferença, não é mesmo, mamãe?

Em Stanley o idioma é o inglês. A senhora sabe que é o mesmo idioma que se fala nos Estados Unidos? A senhora ainda sonha com os Estados Unidos? Lá eu estaria morto, mamãe. Dizem que não é um bom país. Dizem que é propaganda falsa. Dizem que eles têm armas, preconceito. 
 
Comentei que fui preso ontem depois de apanhar? Passei poucos horas. Não se preocupe. Inicialmente os policiais foram educados, porém um me chamou de burro. Sabe, mamãe, não sou burro. Li Hemingway, Neruda e Pasternak. Hemingway disse: “durante o dia, nada mais fácil do que mostrar que não se dá importância, mas, à noite, é diferente.” Não é bonito, mamãe?

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