sábado, 26 de dezembro de 2015

O pintor, a esperança


Havia uma esperança pousada sobre uma tela em branco. Não, não era uma pintura de Roberto Rodrigues, mas sim um desses insetos que respira por traqueias e se movimenta. Ela, no entanto, estava silenciosa, e o único ruído que conseguia sobrepor a conversa que travávamos, eu e Rodrigues, era a voz do Faustão chamando a segunda-feira. A esperança não morre, é o que dizem, pois lhes digo que a mesma esperança que respira por traqueias, se movimenta e estava pousada em uma tela em branco, morreu e continua a morrer num tempo relativamente curto de 3 meses.

Roberto, que com o primeiro nome assina os quadros que produz — e às vezes, somente às vezes, utiliza sobrenome — , gosta de Danone, ou melhor, gosta das variedades de iogurte. Assim como quem diz gostar de Nescau talvez consuma outra marca de achocolatado. Roberto também anseia estar cheirando a gasolina em breve. Por enquanto, para vender seus quadros em Pacajus, que tem como principal público as lanchonetes e churrascarias do centro, guia sua bicicleta com habilidade, pois precisa segurar os quadros com uma das mãos enquanto a outra maneja o guidom.

Roberto sempre gostou de desenhar; “quando criança eu olhava os quadros nos cantos e ficava me perguntando como que a pessoa conseguia pintar uma fruta atrás da outra, ficava me questionando como conseguia colocar aquelas nuvens no céu. A curiosidade foi crescendo junto comigo até eu dizer que queria isso para a minha vida”. Aos 19 anos de idade começou a trabalhar no ateliê –- oficina de pintor, espaço em que artistas trabalham conjuntamente — do Nilson, em Aquiraz, Ce.

Nilson é um Marchand, palavra de origem francesa que significa consultor e negociador de obras de arte. No ateliê do Nilson, Roberto Rodrigues era responsável por separar as madeiras que seriam utilizadas pelos artistas, montar quadros e passar látex nas telas. Neste espaço conheceu pintores de todo o estado e intensificou o seu desejo pelas cores.

Hoje, aos 36 anos, Roberto não encerra sua pintura entre os objetos exclusivos, e por vezes artificiais, da profissão. Tampouco parece se incomodar em dividir o seu quarto com o ambiente de trabalho. Quando é preciso, constantemente é preciso, utiliza pincéis de construção e espátulas de pedreiro. Realizou um desenho e pintura de violão com espátula em minha segunda visita a sua casa, atividade que concluiu em no máximo sete minutos. Utilizou também, em outra pintura, tampa de tambor para criar um desenho arredondado. Sim, o tambor que os pais usam para armazenar alimentos ou água.

Emprega outra ferramenta para colorir os quadros: pistolas de pintura. E o maior desejo é que a sua produção esteja pendurada no máximo de paredes possíveis, e as pistolas propiciam a rapidez para a realização. “Mas a minha pintura forte é constituída por pincéis.”Quando perguntado pelos artistas que mais aprecia, respondeu seguidamente os nomes de Raimundo Cela, Antônio Bandeira — não o ator espanhol, Banderas, mas o pintor fortalezense — e Di Cavalcante.

Roberto Rodrigues é um pintor que preza pela boa aparência, pois acredita que auxilia na venda da obra, e espiritualizado. Também mantém a esperança– o inseto falecido— em seu quarto acreditando que atrai sorte.

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