Escrevo-te esta carta e não
espero nenhum retorno. O endereço é qualquer endereço que não o meu. Desejo ainda
que sofra pelo amor que me destina, pois não encontro em outro lugar tamanho apreço.
Tentarei ser breve, e deixo claro
o completo pagamento de minhas despesas, logo, não lhe devo nada,
absolutamente. E se fiz o que fiz, foi por algum motivo obscuro, misterioso; suponho, entretanto, alguma pena convertida em esmola. Nada além
disso, Gorete.
No nosso terceiro ou quarto encontro, talvez quinto, enquanto a apressava e me apressava, pois não gosto de perder tempo, você tentava conversar e apresentou, ao tirar lentamente o sutiã vermelho, uma surpresa: o meu nome tatuado no seio esquerdo. Reagi abruptamente. Não me arrependo. Você era uma menina qualquer cobrando por sexo, e se voltei, voltei pelo trabalho realizado. Pela transa.
O meu erro foi voltar novamente,
e novamente, e alimentar ainda mais a tua loucura. Mas como fiquei
desempregado, pensei no desconto que passou a oferecer. Até que, de repente,
não voltei mais. A insistência ousada, as lágrimas, os cortes, eu já não pisava na
zona.
Hoje tenho esta tatuagem no pulso
escrito na língua árabe. Se me perguntam o significado, digo ser paz, vida,
alegria. Vai saber se a porra do tatuador fez a coisa certa, que não
creio. Eles nunca irão saber e talvez eu também esqueça.
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