quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Uma carta para Gorete


Escrevo-te esta carta e não espero nenhum retorno. O endereço é qualquer endereço que não o meu. Desejo ainda que sofra pelo amor que me destina, pois não encontro em outro lugar tamanho apreço.

Tentarei ser breve, e deixo claro o completo pagamento de minhas despesas, logo, não lhe devo nada, absolutamente. E se fiz o que fiz, foi por algum motivo obscuro, misterioso; suponho, entretanto, alguma pena convertida em esmola. Nada além disso, Gorete.

No nosso terceiro ou quarto encontro, talvez quinto, enquanto a apressava e me apressava, pois não gosto de perder tempo, você tentava conversar e apresentou, ao tirar lentamente o sutiã vermelho, uma surpresa: o meu nome tatuado no seio esquerdo. Reagi abruptamente. Não me arrependo. Você era uma menina qualquer cobrando por sexo, e se voltei, voltei pelo trabalho realizado. Pela transa. 

O meu erro foi voltar novamente, e novamente, e alimentar ainda mais a tua loucura. Mas como fiquei desempregado, pensei no desconto que passou a oferecer. Até que, de repente, não voltei mais. A insistência ousada, as lágrimas, os cortes, eu já não pisava na zona. 

Hoje tenho esta tatuagem no pulso escrito na língua árabe. Se me perguntam o significado, digo ser paz, vida, alegria. Vai saber se a porra do tatuador fez a coisa certa, que não creio. Eles nunca irão saber e talvez eu também esqueça.

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