-- Alô?
-- Quem é?
-- Michael! Gostaria de falar
com a Dinorá (nome fictício utilizado visando preservar a identidade da personagem),
a cartomante.
-- O que deseja?
-- Marcar uma consulta.
-- Pode ser comigo mesmo.
-- Quanto custa?
-- Cartas simples, 30 reais;
búzios, 40 reais; tarô, 50 reais.
-- Tarô. Preciso marcar
horário?
-- Sim.
-- 14 horas, pode ser?
-- Ok, está marcado. Obrigada!
A atendente -- uma jovem, creio eu, duns vinte
e cinco anos, na qual não se identificou -- possuía voz maviosa, deslumbrante
e límpida, tratou-me também com refino, educação; e foi dessa maneira agradável
que travei o meu primeiro contato em busca do “futuro” tão almejado.
Com quarenta minutos de
antecedência, já me encontrava na rua onde residia a taróloga. Por lá fiquei,
sentado sob uma mangueira, velando o tempo e idealizando perguntas de praxe, pensadas para a reportagem, e outras envoltas de plena curiosidade pessoal. Temia
parecer ansioso, desesperado, súbito.
20 minutos para às 14 horas,
comecei a percorrer uma reta que me levaria à casa de Dinorá-- e que casa. Dois
andares, ampla varanda, pintada de uma cor tão bela e calma que chega a nos
afetar. Azul claro, por toda a parte, nas paredes internas, em molduras,
quadros; havia também uma crença transparente à Iemanjá -- conhecida como
rainha do mar, divindade de religiões africanas.
Na sala de recepção na qual a
esperei -- por pouquíssimo tempo, aliás --, de cor também azul claro, muitas
rosas artificiais preenchiam o local, bem como uma carranca (figura de madeira
usada em embarcações e casas para espantar demônios) de cerca de um metro e
meio, um desenho feito à mão ocupando metade da parede frontal e obras em gesso
de sereias, em posições de retração.
É ela? Não, não acreditei
quando me apertou a mão e convidou-me para entrar numa portinha discreta. Ela
era tão...simples. Usava um vestido “caseiro”, aqueles de malha, óculos de grau
caídos sobre o nariz e carregava consigo um espírito pleno de paz, denotado por
sua fala mansa. Imaginava uma outra personagem, mais mítica, misteriosa, até um
pouco arrogante por ser detentora de tanto poder.
Cartomancia é a prática de
adivinhação com o uso de cartas. Assim, uma pessoa que leia tarô, cartas
ciganas ou um baralho comum é em essência cartomante. Porém, só será tarólogo
quem ler o tarô. Logo todo tarólogo é cartomante, mas nem todo cartomante é tarólogo,
afirma Vanessa Mazza.
Vanessa Mazza é uma cartomante
conectada nas “redes”. Possui um site na internet que disponibiliza consultas
via e-mail e via chat. Além disso, tem Facebook, Twitter, Skype, a parafernalha
toda. Nos últimos anos colaborou com o Diário da Manhã (GO), Diário de São
Paulo (SP), Horóscopo Virtual da UOL e mais alguns programas de rádio e
revistas. Ultimamente andou lendo EMMA,
de Jane Austen; Os Pilares da Terra, de Ken Follet; Não Faça Tempestade Em Copo
D´Água, de Richard Carlson. Não, leitores, não utilizei bola de cristal,
tampouco búzios para saber de todos esses detalhes, está tudo disponibilizado
em vanessamazza.com.br.
Desde criança Vanessa Mazza
jogava com o seu avô que, inclusive, lhe ensinou uma tiragem que “via” o
futuro. Aos treze anos, ganhou um livro de sua mãe que vinha com cartas de
tarô. A partir desse dia, passou a jogar para seus familiares e amigos, de
graça, pois enxergava essa prática como um hobbie. “Tanto que me formei em outra
coisa. Só em 2007 que percebi que poderia viver de tarô e comecei a me
profissionalizar e cobrar pelas consultas. Fiz vários cursos, li livros,
aprendi várias técnicas.”
Voltemos a Dinorá! Atrás da
portinha, existiam muitas representações de pretos velhos em uma grande
estante. Havia também um cinzeiro, sobre um mármore negro, com rastros de
cinzas que identificavam ser de incenso. Ao embaralhar as cartas – que acredito
ter sido de tarô, pelo preço pago – rezava baixinho, mas com clareza, pedia uma
certa “iluminação” a Iemanjá. Ao término, dividiu as cartas em pequenos “bolos” e as dispôs em formato de cruz. Após uma
pausa, a última carta de cada “bolo” era revelada, e o destino, exposto.
O que um tarólogo faz afinal?
Mesma pergunta que intitula um artigo de Vanessa. Nele ela compara o tarólogo a
um instrumentista. “Alguém que tem um domínio de uma ferramenta e que a usa
para atingir um determinado fim. Porém, se tratando de algo muito subjetivo,
posto que os símbolos presentes nas cartas formam um linguagem única.”
Na segunda parte da tiragem,
Dinorá formou duas filas de três cartas voltadas para baixo; eu deveria fazer
uma pergunta e escolher uma qualquer. Imagens como anel de ouro, chave, homem
de bengala vestido à Charlie Chaplin e uma série de ambientes agradáveis de
difícil distinção, deram a honra de aparecer. Segundo o Clube do Tarô, há
dezenas de modelos para consulta, sem haver uma técnica ou método ideal.
Esotéricos e paranormais, no
qual incluem os cartomantes, os tarólogos, cristalomantes, quirólogos,
videntes, frenólogos, entre outras atividades, estão registrados com o código 5168-05
pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Assim sendo, são reconhecidos
pelo Ministério do Trabalho, podendo registrar-se em carteira e contribuir para
o INSS. Segundo a descrição sumária contida no site do Ministério do Trabalho e
Emprego, eles orientam pessoas e organizações, elegem momentos e locais por
meio de oráculos ou de dons de paranormalidade, podendo ministrar cursos.
Ao sair do pequeno espaço no
qual me foi revelado os obstáculos e possíveis vitórias do caminho que sigo,
senti uma leveza desconfortável, me faltava algo tangível. Contudo não sei
dizer se a cédula de 50 reais-- que tomou outro rumo separado ao meu--
continha considerável peso.
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