sábado, 8 de agosto de 2015

Cartas Destinadas

Impressões de um visitante

-- Alô?
-- Quem é?
-- Michael! Gostaria de falar com a Dinorá (nome fictício utilizado visando preservar a identidade da personagem), a cartomante.
-- O que deseja?
-- Marcar uma consulta.
-- Pode ser comigo mesmo.
-- Quanto custa?
-- Cartas simples, 30 reais; búzios, 40 reais; tarô, 50 reais.
-- Tarô. Preciso marcar horário?
-- Sim.
-- 14 horas, pode ser?
-- Ok, está marcado. Obrigada!
 A atendente -- uma jovem, creio eu, duns vinte e cinco anos, na qual não se identificou -- possuía voz maviosa, deslumbrante e límpida, tratou-me também com refino, educação; e foi dessa maneira agradável que travei o meu primeiro contato em busca do “futuro” tão almejado.

Com quarenta minutos de antecedência, já me encontrava na rua onde residia a taróloga. Por lá fiquei, sentado sob uma mangueira, velando o tempo e idealizando perguntas de praxe, pensadas para a reportagem, e outras envoltas de plena curiosidade pessoal. Temia parecer ansioso, desesperado, súbito.  

20 minutos para às 14 horas, comecei a percorrer uma reta que me levaria à casa de Dinorá-- e que casa. Dois andares, ampla varanda, pintada de uma cor tão bela e calma que chega a nos afetar. Azul claro, por toda a parte, nas paredes internas, em molduras, quadros; havia também uma crença transparente à Iemanjá -- conhecida como rainha do mar, divindade de religiões africanas.

Na sala de recepção na qual a esperei -- por pouquíssimo tempo, aliás --, de cor também azul claro, muitas rosas artificiais preenchiam o local, bem como uma carranca (figura de madeira usada em embarcações e casas para espantar demônios) de cerca de um metro e meio, um desenho feito à mão ocupando metade da parede frontal e obras em gesso de sereias, em posições de retração.

É ela? Não, não acreditei quando me apertou a mão e convidou-me para entrar numa portinha discreta. Ela era tão...simples. Usava um vestido “caseiro”, aqueles de malha, óculos de grau caídos sobre o nariz e carregava consigo um espírito pleno de paz, denotado por sua fala mansa. Imaginava uma outra personagem, mais mítica, misteriosa, até um pouco arrogante por ser detentora de tanto poder.

Cartomancia é a prática de adivinhação com o uso de cartas. Assim, uma pessoa que leia tarô, cartas ciganas ou um baralho comum é em essência cartomante. Porém, só será tarólogo quem ler o tarô. Logo todo tarólogo é cartomante, mas nem todo cartomante é tarólogo, afirma Vanessa Mazza.

Vanessa Mazza é uma cartomante conectada nas “redes”. Possui um site na internet que disponibiliza consultas via e-mail e via chat. Além disso, tem Facebook, Twitter, Skype, a parafernalha toda. Nos últimos anos colaborou com o Diário da Manhã (GO), Diário de São Paulo (SP), Horóscopo Virtual da UOL e mais alguns programas de rádio e revistas.  Ultimamente andou lendo EMMA, de Jane Austen; Os Pilares da Terra, de Ken Follet; Não Faça Tempestade Em Copo D´Água, de Richard Carlson. Não, leitores, não utilizei bola de cristal, tampouco búzios para saber de todos esses detalhes, está tudo disponibilizado em vanessamazza.com.br.

Desde criança Vanessa Mazza jogava com o seu avô que, inclusive, lhe ensinou uma tiragem que “via” o futuro. Aos treze anos, ganhou um livro de sua mãe que vinha com cartas de tarô. A partir desse dia, passou a jogar para seus familiares e amigos, de graça, pois enxergava essa prática como um hobbie. “Tanto que me formei em outra coisa. Só em 2007 que percebi que poderia viver de tarô e comecei a me profissionalizar e cobrar pelas consultas. Fiz vários cursos, li livros, aprendi várias técnicas.”

Voltemos a Dinorá! Atrás da portinha, existiam muitas representações de pretos velhos em uma grande estante. Havia também um cinzeiro, sobre um mármore negro, com rastros de cinzas que identificavam ser de incenso. Ao embaralhar as cartas – que acredito ter sido de tarô, pelo preço pago – rezava baixinho, mas com clareza, pedia uma certa “iluminação” a Iemanjá. Ao término, dividiu as cartas em pequenos “bolos” e as dispôs em formato de cruz. Após uma pausa, a última carta de cada “bolo” era revelada, e o destino, exposto.

O que um tarólogo faz afinal? Mesma pergunta que intitula um artigo de Vanessa. Nele ela compara o tarólogo a um instrumentista. “Alguém que tem um domínio de uma ferramenta e que a usa para atingir um determinado fim. Porém, se tratando de algo muito subjetivo, posto que os símbolos presentes nas cartas formam um linguagem única.”

Na segunda parte da tiragem, Dinorá formou duas filas de três cartas voltadas para baixo; eu deveria fazer uma pergunta e escolher uma qualquer. Imagens como anel de ouro, chave, homem de bengala vestido à Charlie Chaplin e uma série de ambientes agradáveis de difícil distinção, deram a honra de aparecer. Segundo o Clube do Tarô, há dezenas de modelos para consulta, sem haver uma técnica ou método ideal. 

Esotéricos e paranormais, no qual incluem os cartomantes, os tarólogos, cristalomantes, quirólogos, videntes, frenólogos, entre outras atividades, estão registrados com o código 5168-05 pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Assim sendo, são reconhecidos pelo Ministério do Trabalho, podendo registrar-se em carteira e contribuir para o INSS. Segundo a descrição sumária contida no site do Ministério do Trabalho e Emprego, eles orientam pessoas e organizações, elegem momentos e locais por meio de oráculos ou de dons de paranormalidade, podendo ministrar cursos.

Ao sair do pequeno espaço no qual me foi revelado os obstáculos e possíveis vitórias do caminho que sigo, senti uma leveza desconfortável, me faltava algo tangível. Contudo não sei dizer se a cédula de 50 reais-- que tomou outro rumo separado ao meu-- continha considerável peso.

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