sábado, 27 de dezembro de 2025

Homem de um quarteirão

 

 

 

Pintura de Seppo Tamminen, 1998

 

 

Nem o meu quarteirão é maior que o mundo, nem o rio que não há no quarteirão da minha cidade é mais (ou menos) belo: se maior em beleza fosse, seria vulgar; se menor, indecoroso; e, sobretudo, não seria como é — existir (a ausência é uma existência) é atributo suficiente para torná-lo perfeito.

O quarteirão da minha cidade é já o mundo, e ainda que não supere eu os seus limites, habito o ilimitado, como que no dimensionável útero que contém o infinito divino; útero que encerrou o Criador do que encerra.

No quarteirão da minha cidade incide a luz da estrela maior, a mesma que banha a China, a Palestina, Israel e Marrocos. As ruas que o compõem são identificadas, mas a identidade não identifica — há uma que tem por nome (ou fardo) um déspota; e, a despeito disso, não cheira a sangue, mas a pastel; nela predomina o som do carnaval e dos pardais, e não o do trote da marcha regimentar.

Às vezes sou rei, nessas ruas, às vezes mendigo; nelas podemos ganhar e perder uma revolução, erigir palácios e casebres. Mas, principalmente, fazemo-nos homens em companhia (e sobre) elas.

 

 

 

 

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