domingo, 22 de setembro de 2024

Revolução sem sangue

 



Caminha o Louco entre desperto e sonâmbulo, o olhar para além e para o alto, chocando-se contra o abismo do céu, o corpo a cair em precipício.

A luz dos astros, esparramada pelo chão como coisa com corpo, faz com que ele tropece. Os astrônomos se rebelam, igualmente os astrólogos: o Louco, afinal, borrou o mapa celeste, chutou astros de nomes raros e distantes, pôs fim a profissões.

Pisou, sem botas, em muitas casas (de areia); esmagou com a massa do corpo a família Formicidae. — Genocida! — gritam ululantes. Da cobra, pisou a cabeça; sem se aperceber, cumpria uma sina antiga.

Foi visto pelo rei, mas não o viu, e não há pior ultraje. Foi encarcerado e logo morreu por falta de amplidão. 

 

 

 

 

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