O título acima possui uma cópula entre signos contraditórios (sonho e realidade), antitéticos. E ainda que antitéticos, estão, no título, lado a lado, contíguos. O príncipe do Egito, sobre o sonho, disse que é dado, oferecido aos olhos da percepção, e oferecido também o seu significado. Não nos pertencem (sonho e significado), pois. Da realidade, Outro, ainda maior que o primeiro, diz-nos que precisa ser revelada, descoberta. A partir desse título, e suas reverberações, discorrerei brevemente sobre o conto gráfico "Mão Verde" de Nicole Claveloux e Édith Zha.
Na primeira página e segundo quadro da obra, o narrador apresenta ambiente e as personagens. "Ela vive sozinha num apartamento enfumaçado" e, em seguida, "ali também vive um pássaro". Não é um, mas são dois, e haverá um terceiro, este do reino vegetal. Como no sonho, não há nomes próprios; como num sonho, distintos e iguais (homem, pássaro e planta). Todos habitam a mesma língua, embora suas formas sejam dissemelhantes; padecem igualmente de dor e medo.
Ela (a mulher), onírica e pragmática. Sonhada e que sonha. Não é heroína, tampouco o objeto do herói ou o descanso do guerreiro. Desejosa a mulher de uma planta afetuosa, ouviu que necessário seria ter a mão verde, e que isso era um dom que se possuía ou não se possuía. Ela, por sua vez, replica (belamente) que não tem mas terá: e pinta as próprias mãos. A cor é estruturadora dos capítulos do conto gráfico. Vejamos: o primeiro capítulo chama-se "a mão verde"; o segundo, "a relva negra", e não verde, como era de se esperar; o terceiro, "a noite branca", e não negra; o quarto, "o medo azul", substantivo adjetivado com a cor da imensidão do céu e do mar; o quinto, e último, "as barracas roxas".
Na primeira página e segundo quadro da obra, o narrador apresenta ambiente e as personagens. "Ela vive sozinha num apartamento enfumaçado" e, em seguida, "ali também vive um pássaro". Não é um, mas são dois, e haverá um terceiro, este do reino vegetal. Como no sonho, não há nomes próprios; como num sonho, distintos e iguais (homem, pássaro e planta). Todos habitam a mesma língua, embora suas formas sejam dissemelhantes; padecem igualmente de dor e medo.
Ela (a mulher), onírica e pragmática. Sonhada e que sonha. Não é heroína, tampouco o objeto do herói ou o descanso do guerreiro. Desejosa a mulher de uma planta afetuosa, ouviu que necessário seria ter a mão verde, e que isso era um dom que se possuía ou não se possuía. Ela, por sua vez, replica (belamente) que não tem mas terá: e pinta as próprias mãos. A cor é estruturadora dos capítulos do conto gráfico. Vejamos: o primeiro capítulo chama-se "a mão verde"; o segundo, "a relva negra", e não verde, como era de se esperar; o terceiro, "a noite branca", e não negra; o quarto, "o medo azul", substantivo adjetivado com a cor da imensidão do céu e do mar; o quinto, e último, "as barracas roxas".
Caso o título não tenha sido capaz de justificar-se até aqui, julgo que não o será agora, no final. O pássaro, segundo elemento e personagem, está na jaula moderna, que contém número, cep e logradouro. Símbolo do ar, está plantado no chão. Vê por uma janela em que não se faz dia claro, mas sempre confuso, difuso. Responsável pela morte da planta, que o incitava a vida, preferiu ele dar ouvidos (e vida) ao inerte que é a palavra inscrita no livro "A arte de viver". Por fim, mergulhou no mar.
P.S: Há, para além do conto gráfico "Mão Verde", outros contos na edição da Comix Zone. Não os mencionei visto que não os vi, ainda, por ora; duas semanas "mão verde" debruçou-se sobre mim, ou eu sobre ele, ressonou, demorou-se em mim
A Mão Verde, de Nicole Claveloux e Édith Zha. Editora Comix Zone, 2022



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