sábado, 2 de julho de 2022

Que os mortos enterrem os seus mortos (Mateus; 8,22). O morto tolhe o vivo (prefácio da 1ª edição de O Capital, 1867)


O vagão de terceira classe, Honoré Daumier




O que deixou de ser (não-ser) exerce, ou pode exercer, poder sobre o que é. A partir da perspectiva narrativa temporal, pensemos no tempo passado [divagação I, último parágrafo]. Morto, também, no sentido de inanimado, a coisa sem alma (anima), sem o sopro, na compreensão grega, que anima o corpo vivo, característica distintiva dos seres anima-dos. Percebe-se no texto cristão um terceiro nível semântico: daquilo que está vivo, embora morto. A contradição é um fato da linguagem, assim, não nos apressemos. Pode-se estar vivo com “atributos”, digamos, de coisa morta; ou estar vivo relacionando-se com coisas mortas. Como o doce que participa da maçã, sem ser o doce, por isso, o mesmo que a maçã. O vivo pode participar do morto sem ser ele próprio morto. Essa participação pode ser voluntária ou força parasita (e tirânica) que atua do exterior para o interior: alienando, sorvendo sangue (vida).

Desta interpretação (caso haja algo de verossímil nela) é legítimo perceber a ressuscitação num sentido distinto: não do que está concretamente morto recuperando vida; mas do vivo que inautenticamente participa do não-ser, porém sempre apto a recuperar o que lhe é próprio.

Utilizei-me de um motivo presente no prefácio de O Capital não à toa: para sinalizar sutilmente que o aparente abismo entre a tradição judaico-cristã e Marx é, como já dissera, aparente. Sobre a categoria “trabalho”, por exemplo – pão e vinho, símbolos não casuais da tradição cristã: nesses produtos há a substância criadora do valor: o trabalho. Existem pontos de contato relevantes, ainda que relegados.


Divagação I

Passado que se impõe, às vezes, sensivelmente: em faces, gestos, em pessoa – não figuradamente. Assim como a personagem de Sofia, do filme El Pasado de Hector Babenco. Sofia é o passado encarnado que deseja estabelecer-se no presente e perpetuar-se no futuro, sempre como passado, entretanto.

 

El Pasado, de Hector Babenco

 


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