domingo, 6 de março de 2022

Rei degolado

 

Pintura "O sono", de Salvador Dalí


 
Francisco, sem tartamudear, coisa rara, disse isto: matamos o rei para que ele pudesse, enfim, viver. O que disse Francisco era muito belo e sonoro – um hino, e por isso não tartamudeou. Ademais, disse que mataram o rei para a proteção dele (do rei); que mataram para preservar a sua imagem, o seu bom senso e a sua virilidade (a virilidade do rei); mataram o rei, ou mais especificamente, degolaram o rei. Mataram o rei porque desejavam preservar a sua cabeça (a cabeça do rei, naturalmente). Que o rei, agora morto, está protegido, e, sua cabeça, no lugar – afinal, mataram o rei para que os vermes não o comessem. A cabeça do rei, exclamou Francisco, está a salvo… resguardada dos inimigos – e quão cruéis são os inimigos; mas os grandes reis possuem grandes inimigos – e dos vermes, reiterou Francisco. Eles degolaram o rei para libertá-lo da prisão do corpo. Hoje, as cidades de Santa Fé, Bom Retiro e Melhor Senso estão em polvorosa, festejam a vida do rei morto. O rei está em júbilo, onde quer que esteja. Os homens de bom coração devem ser degolados, disse, exaltado, Francisco. O coração do rei era nobre, é nobre, pois agora mesmo o rei vive entre nós. Morto, o rei vive no meio de todos; vivo, morreria. Brindemos à saúde do rei!
 
 


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