domingo, 20 de março de 2022

Do tupi murisóka

 


E elas assentam, tão educadas, tão gentis – não se fazem notar. Há eminência neste modo de ser silencioso, de não historicizar (coisa banal e infértil) o trajeto do berço à tumba. Se o homem adivinhasse que a expressão é quase sempre uma vulgaridade. As muriçocas pousam, e como não podia deixar de ser, sutilmente.

É preciso desconfiar, com razão, da amabilidade excessiva. Primeiro, porque as carícias domesticam o cavalo; e o homem, quando amansa o animal, não o faz simplesmente: deseja montá-lo. Se alimenta o animal, é para que mais gorda seja a porção. Segundo, o zelo desmesurado despovoaria o planeta. Quem romperia o hímen? Dissera a maior cartomante do Rio, Mathilde, ao João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto: “Recorda-se da história do Oráculo de Delfos? É a história da prudência, de ser ambíguo para não se enganar.” Ser ambíguo como o homem, como o inseto...Ser ambíguo, ambígua como a palavra.

Vivem pouco; ou o suficiente para que não cansem de ser quem são. Ser o que se é e quem se é, às vezes, é um assombroso fardo. As muriçocas vivem, quando muito, sete dias. Borges, aos setenta, já estava aburrido de ser Borges...outros se entediam com bastante antecedência. Quiçá por viverem essa ninharia é que chupam com tanta avidez, e falecem. E caso se comportassem com menos afoito? Ora, não seriam o que são – afinal, fazem do desejo o guia do destino.

Não há como exterminá-las. São como as moscas! Somente é possível reduzir suas fileiras, produzir algumas baixas, como no jargão militar. E sempre existem os riscos. A tática da aranha é a mais conveniente: aprisioná-las quando revoluteiam anarquicamente. Ou esperar que estourem de saciedade que nem as bolhas de sabão. Ou esperar que chupem, isso faz com que fiquem letárgicas, e, então, apertá-las entre os dedos e fazer com que o sangue volva ao antigo possuidor.






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