domingo, 16 de janeiro de 2022

Santiago, 2007. Direção de João Moreira Salles


Santiago” é a história do homem, no sentido genérico, e dos homens João e Santiago, em particular. Dizer isso é dizer muito mas nega todo o resto. E o resto, bem, o resto pode ser o essencial. “Santiago” é o líquido que transborda da taça e debalde é o esforço de contê-lo. A atividade que me proponho, ainda que inútil, pode ser prazerosa. Vejamos a seguir:
 
Santiago sonhou – o que aparenta ser singelo, mas, ao que tudo indica, substancial para a existência humana. Santiago sonhou pertencer à real aristocracia francesa, porém, de pronto, acordou assustado. Santiago sonhou ser um aristocrata justamente quando esses eram degolados. Semelhantemente trágico foi o sonho de Florbela Espanca: “sonho que sou a poetisa eleita, aquela que diz tudo e tudo sabe, que tem a inspiração pura e perfeita, que reúne num verso a imensidade” […] E quando mais no céu eu vou sonhando, e quando mais no alto ando voando, acordo do meu sonho… E não sou nada”!

João capturou algo que não participa da evolução histórica, algo que permanece imutável, a saber, o coração humano. A força motora das grandes narrativas é o sentimento: a dor, a cólera, o amor, a inveja, a frustração. Mas também, especialmente, são motivadores o sonho e a memória. Tão fantástica é a memória como é a narração do que está por vir. Sonho e memória estão amalgamados; difícil, pois, é a distinção de um e outro.

O filme Santiago é um conto de um conto, a memória de uma memória. Em 1992 João gravou e o filme não foi concluído. Somente em 2003 o longa começou a ser montado a partir do material bruto de 1992, a partir de um arquivo.

Quem, afinal, é o homem Santiago? Disso sabemos muito pouco. Quem foi o homem Santiago? Fora o mordomo da família de João por trinta anos – ou quase isso. E, de alguma forma, continua a sê-lo, embora já não seja. O contato entre o diretor e personagem continua a ser hierárquico, como a própria voz do diretor confidencia em off: “eu nunca deixei de ser o filho do dono da casa; ele, o mordomo”. O filme Santiago apresenta uma ambiguidade insuperável; um sentido, entretanto, faz-se notar: a impossibilidade de haver relação – no sentido forte da palavra – entre desiguais.

O que espera o diretor do homem Santiago? Uma narração do passado, uma específica. João almeja recontar a própria história infantil e familiar com outros lábios… os do mordomo. Igual a Orfeu, João busca ressuscitar o que teve fim, o que já não mais é, o que está sepultado pelo tempo.

João conhece a lei, todos nós a conhecemos: não olhar para trás. E por este motivo imagino inicia o documentário ao som sugestivo de Gluck, Orfeu e Euridice. Conhecer a lei não é suficiente. João olhou para trás, augustamente, tal qual a mulher de Lot, cônscio dos conflitos e ambivalência que o ato lhe proporcionaria. A memória é o espaço do confronto… quão tentador é volver e transformar-se em estátua de sal.

Com Santiago, o grande diretor está despido e envergonha-se – e não podia ser de outro modo… sob as vestes, estamos todos despidos!





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