sábado, 15 de janeiro de 2022

A morte de Deus e a circularidade egóica


Nietzsche, na década de 1880, descreveu um pálido delinquente, pálido porque lhe faltou sangue, embora tenha vertido o sangue de outrem. O pálido delinquente estava à altura do seu crime, segundo Nietzsche, quando o logrou; porém não suportou a imagem do crime, ou seja, a imagem posterior ao crime. Por isso é um pobre pálido. Faltaram-lhe colhões, coisa infamante, diga-se

Logo se vê que Zaratustra conheceu Raskólnikov e não gostou do que viu; e não porque fosse feio esse Raskólnikov, tinha até uma boa aparência o rapaz, mas não tinha espírito. Não era um Napoleão! Raskólnikov até julgou sê-lo (um grande espírito napoleônico), não era, definitivamente. Napoleão não tremeu como tremeu Raskólnikov, Napoleão, sem tremer, ultrapassou fronteiras e traspassou corpos. Quando Nietzsche fez Zaratustra dizer que Deus estava morto, quiçá disse algo assombroso, todavia a modernidade já havia dito sem dizer isto: que Deus está morto. Já havia dito Descartes sem pronunciar, o mesmo Hegel. E como todos já tinham dito, foi possível na ilustre modernidade o acontecimento de ao menos três grandes genocídios/epistemicídios – dos muçulmanos, com a queda de Granada; o genocídio nas Américas e o genocídio das “bruxas” na Europa.

É preciso esclarecer o que chamo “Deus”, ou como o significo. Quando Dostoiévski fez Ivan Karamázov enunciar que “se Deus não existe, tudo é permissível”, o que Ivan desejava exprimir? Possivelmente, não diz que a lei/impedimento é um fenômeno exclusivo da tradição judaico-cristã. Talvez tenha querido dizer, e é em que acredito, que Deus é o outro, o absolutamente outro. E caso o outro não exista, a minha subjetividade é soberana; que nada resiste para além da minha individualidade, que nada há além da minha vontade. Eu sou, e sou totalidade.

Atentemos para o que escreve Hegel em sua estética; o que estiver entre parênteses pertence a mim, um sutil, e singelo, acréscimo da minha parte. “A mútua inimizade entre nações estrangeiras é um fator substancial (que existe por si mesma, o sentido e a condição de possibilidade do que é). Cada povo constitui uma totalidade diferente da dos outros, por vezes mesmo oposta à dos outros (o que faz oposição à totalidade é a exterioridade, aquilo que chamaríamos “inimigo”). Quando estes povos se erguem uns contra os outros, nenhum laço moral é destruído, nada do que tem valor em si mesmo é lesado, nenhuma unidade necessária é desagregada; pelo contrário, há uma luta para a conservação inatacável da totalidade de cada um e para o seu direito à existência.”. Hegel pensa uma totalidade e uma exterioridade que não pertence à totalidade do todo; a eliminação da exterioridade não fere a moralidade (por que deveria?), é um direito o qual urge ser realizado. A face outra da totalidade é a inimiga, o outro é o bárbaro.

Agora, voltemos um pouco ao que já foi dito. Se Deus existe como outro absoluto e sagrado, que está para além de mim mesmo, quando fala a Moisés, quando apresenta a sua face como outro em sua subjetividade sagrada e concreta, que clama, que chama, que interpela, Ele deve ser vivificado; devemos considerá-lo a partir de uma ética e não de uma estética. O outro é o terreno no qual não posso pisar, tampouco traspassar esse outro que é sempre mistério para mim visto que outro: o indígena é o meu outro; a mulher é o meu outro; o irmão (Abel) o meu outro; matar o outro é desejar ser totalidade, divinizar-se. É através desta significação, creio, que Dostoiévski faz o filho Karamázov comunicar: “se Deus está morto, tudo é permitido”. E sabedor da mesma significação, Nietzsche faz a audaz personagem Zaratustra exclamar: “Onde quer que encontrasse o que é vivo, encontrei a vontade de domínio, até na vontade do que obedece encontrei a vontade de ser senhor. Sirva o mais fraco ao mais forte: eis o que lhe incita a vontade (que pertence a tudo o que é vivo), que quer ser senhor do mais fraco. É essa a única alegria de que se não quer privar [...] Só onde há vida, há vontade; não vontade de vida, mas como eu predico, vontade de domínio”.

Até o momento andei nu, sim, este que escreve, coisa que não é de modo algum aconselhável, embora, admito, gozoso. Os ventos são muitos e me chicoteiam a carne despida; as urtigas queimam a carne desnuda. Logo, é preciso vestir-se. As minhas vestes, por momento, serão as palavras de Heidegger. Segundo este, na modernidade – que constituo a partir de 1492 – o homem se converte em medida e fundamento de todas as coisas. “A doutrina nietzscheana que converte tudo o que é e tal como é em propriedade e produto do homem não faz mais que levar a cabo o desenvolvimento extremo da doutrina de Descartes – que subordina a existência ao eu, ao sujeito – em que toda a verdade se funda na certeza que possui o sujeito humano [...] Na modernidade, toda consciência das coisas e do ente em sua totalidade é reconduzida à autoconsciência do sujeito humano como fundamento de toda certeza”.

Poderia vestir-me, igualmente, com os caracteres de Marx e de Bauman, e como que planar sobre o pensamento ocidental. O último autor citado, por exemplo, ao avaliar o que designa de pós-modernidade, identifica a relação do fornecedor de bens e o coletor de sensações. Segundo Bauman,“nem um nem outro estão, pela natureza de seu ser-no-mundo, dispostos a se engajar num ordenamento espacial moral”. Isso porque o fornecedor de bens, para produzir o que almeja, vê em tudo e em todos matéria manuseável; e o coletor de sensações/experiências usa o outro como meio de gozo subjetivo – gozo que precede, ou ao menos promete, outro gozo maior e mais satisfatório. Não convém, pois, a nenhum deles a moral, a responsabilidade do outro como outro.

Evidentemente é preciso dizer mais, ruminar mais, e eu que ando quase sempre despido, não resistirei. Outros, mais bem agasalhados, poderão dizer mais e melhor... com verdade ou com esta pretensão, que não é a minha.



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