sábado, 21 de fevereiro de 2015

AA Impressões de um visitante

     “Concedei-nos Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras.” A sociedade cotidianamente reafirma em cochicho que a primeira impressão é a que fica, e a frase acima exposta entre aspas, estampada na parede em letras garrafais -- de difícil entendimento por causa da fonte usada --e dita em oração antes da reunião iniciar, não me marcou tanto quanto a segunda impressão, a de um senhor chamado Pereira, de mais ou menos 60 anos, um dos coordenadores da irmandade Alcoólicos Anônimos na cidade de Pacajus, que estava sentado ao centro em uma cadeira aparentemente de extremo conforto junto à mesa repleta de documentos. Baixinho, vermelho, poucos cabelos, óculos de armação moderna -- retrô --, uma figura caricata e de educação refinadíssima. Nesta reportagem utilizarei nomes fictícios visando preservar a identidade dos participantes do A.A.
     Adentrei no recinto por volta das 18 horas de uma terça-feira, conforme o meu relógio, que está sempre adiantado; no momento só havia Pereira e mais cinco anônimos. Aproveitei este meio tempo para apresentar-me e familiarizar-me com o ambiente, que, aliás, nos remete a uma pequena igreja daquelas em formação, com pouquíssimas cadeiras, entretanto com o aconchego dos espaços reduzidos. 
     A reunião começaria às 19 horas, como sempre, e como sempre acontece, a maioria dos participantes chegaram após a hora marcada. Depois da oração, o coordenador e também orador iniciou as leituras dos convites remetidos de outros anexos. Sua fala era entrecortada, lia com dificuldade, aparentemente não entendia aquelas palavras jogadas desordenadamente no papel. Somente depois de um longo período as frases eram expulsas à força, se necessário fosse.
     Em 21 de outubro de 1984, se deu a criação do Alcoólicos Anônimos em Pacajus, e J. Júnior, 65, foi o primeiro e único membro durante um ano. Conta, com o seu cigarrinho aceso de lado, que a primeira reunião, no início realizada em um espaço concedido pela igreja, chegou bêbedo e só havia pessoas de outras cidades. “No final, acabei ficando com a chave para abrir o ambiente. Ia aos dias marcados, fazia garrafa de café e chá, mas ninguém aparecia, ficava até o horário certo e depois derramava a garrava de chá e levava a de café para casa”.
     J. Junior tem 30 anos de Alcoólicos Anônimos, contudo teve uma recaída de 20 anos, voltando ao grupo ano passado. “A minha vida de alcoólatra iniciou numa festa de forró com o incentivo de amigos, incentivaram tanto que bebi três tampinhas de aço de refrigerante, bem pequenas” e suficientes.
     Quinta-feira, 27, Pereira está presente, mas não como coordenador. Em Pacajus, há um para cada dia de reunião. As reuniões acontecem nas terças -- organizadas por Pereira --, quintas e sábados, das 19 às 21 horas. Segundo AABR (Alcoólicos Anônimos Brasil), a irmandade não tem administradores, executivos com poderes e autoridade, contudo precisam de voluntários, pessoas responsáveis para planejar, conseguir uma sala adequada, café. Os encarregados das atividades do A.A. geralmente são eleitos pelos próprios frequentadores e a rotatividade é constante.
     Nesse mesmo dia, seguiram-se, como de praxe, os costumes: o sino que convoca os anônimos à sala, o cafezinho e o chá de canela, o minuto de silêncio, o cafezinho e o chá de canela, a “oração”, o cafezinho e o chá de canela, os depoimentos, a arrecadação, o cafezinho e o chá de canela, o minuto de silêncio, a “oração”, o cafezinho e o chá de canela.
     Na sétima tradição (“todos os grupos de A.A. deverão ser absolutamente autossuficientes, rejeitando quaisquer doações de fora”), que aconteceu pontualmente às 20 horas, foram arrecadados 80 reais e 25 centavos. A sacolinha passa, e cada um contribui – se quiser contribuir – com o valor que deseja. Não existem obrigações financeiras de nenhum tipo para os membros do A.A., afirma AABR em seu site oficial.
     Aqueles que pretendem expor suas dificuldade e vitórias precisam pôr o nome em uma folhinha que se encontra com o coordenador. Assim o fez F. F, 55 anos, aposentado e há dois meses sem beber. Sentado ao meu lado, esperando ansiosamente sua vez, balançava sua cabeça em positivo energicamente, aplaudia com vigor, cumprimentava os que terminavam de depor com ferocidade. Enfim, chegou a sua vez. Pouco falou. Talvez pretendesse falar mais, mas a fila é grande para o tempo que se torna tão curto.
     De acordo com a Junta de Serviços Gerais de A.A. do Brasil (JUNAAB), Alcoólicos Anônimos é uma irmandade de homens e mulheres que compartilham suas experiências, forças e esperanças, a fim de resolver seu problema comum e ajudar outros a se recuperarem do alcoolismo.
     Já para M. Paulo, um senhor que se assemelha ao Faustão, o tempo foi mais que suficiente para trazer à tona experiências com feitiçaria, bairros de Fortaleza e mulheres. Deixou claro que o A.A. é o passo para ser aceito entre os homens. “Vem dois homens e um bêbado”, “Vêm dois homens, um cachorro e um bêbado”, e desta maneira explicitava a desconsideração que os outros tinham para com os alcoólatras. Uma parte de seu discurso foi ao som de Alcione, advindo de um dos dois bares existentes ao lado do prédio do grupo.
     Segundo informações contidas no site do Ministério da Saúde, alcoolismo é a dependência do indivíduo ao álcool, considerado doença pela Organização Mundial de Saúde. O uso constante, descontrolado e progressivo de bebidas alcoólicas pode comprometer seriamente o bom funcionamento do organismo, levando a consequências irreversíveis.
     Ao final da reunião, eles não ficaram papeando na calçada, como muitos fazem ao chegar. Novamente eles estão a sós e o fornecedor do veneno que os mata está à espreita esperando a próxima recaída, que é sempre pior e mais dolorosa.

Reportagem produzida no mês de setembro.
Michael Holanda

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