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| Rene Magritte, 1935 |
Há um prego no par esquerdo do calçado. E com ele trabalho, e com ele estudo e até namoro. É um prego de juntura, de ligação, que une o solado ao corpo (do tênis), a terra ao solado, o solado a mim e a mim à terra.
Sinto-o rudemente a tocar a pele, a feri-la, a sangra-la, a perfurar a meia, quase a tecê-la. Dói-me, às vezes, e sinto-me como se deveras calçasse botas, sandálias e sapatilhas.
Quando estou a senti-lo, e esse sentir me sobrepassa, visto-me com duplas meias, e é quase um não existir. Ademais, ser pela metade não é de todo ruim -- de vez em quando --, e pego-me a recitar Shakespeare: dormir, dormir, quiçá sonhar. É uma levitação na presença da gravidade.
Existem dias, porém, que não anseio à poética ou ao surrealismo: somente ser cindido pelo prego que pisa a terra, pisa o mundo e, de alguma forma, mantém o equilíbrio universal.
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| Gueli, 2006. |


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