domingo, 19 de abril de 2020

Do único dia



Diário P.I, III, do único dia


Em um único dia tudo pode ser dito; que, por exemplo, todos os outros dias habitam neste. E deste dia, o que mais pode ser dito?, que é um, que igual ao de ontem e protótipo do de  amanhã. E neste dia, diz-se, Shakespeare escreveu Rei Lear e Macbeth -- personagens heroicos e compensatórios do desafortunado autor; a primeira tragédia pior do que a segunda; e neste dia redundante, circular, Shakespeare constatou que a) era um homem inglês b) pequeno, irrelevante... e c) da irrelevância da maioria. Do homem relevante foi dito que criou este dia em seis dias e ponto. De um homem relevante, uma única obra. O irrelevante espera – glória, possivelmente –, mas seja o que for, não chega; se não chegou, não chegará; e se este dia sucede assim é porque assim é, é porque é natural.



Diário P.II, IV, do único dia


Dois Batistas, doidos, primos, primos meus também. Um de loucura mansa, doce, de vaca, de céu; outro, loucura de espernear, gritar, bater, de quem tem fome, de inferno. No céu, a ação de contemplar; no inferno, rugir, rosnar. Por sorte, não me chamam Batista.



Diário P.II, V, do único dia


O ônibus passou no seu horário habitual, mas parou, esperou, o motorista é meu amigo; ainda preciso correr com os tênis nas mãos e pés descalços. E isto todo dia. Acordo sobressaltado. Não há hora, portanto, não há o que perder.



Diário P. II, VI, do único dia


Uma carreta na rua central da cidade. Estremece, balança: ela e as casas. Uma moça grita "vai bater", "bateu", "volta", a moça segura uma criança que começa a chorar. A cena é cômica, as instruções, precisas; tal como ser passageiro em um avião e alertar ao piloto "dá  à ré". A carreta, neste dia, leva consigo postes e fios elétricos.





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