Diário P.I, III, do único
dia
Em um único dia tudo pode ser dito; que, por exemplo, todos os outros
dias habitam neste. E deste dia, o que mais pode ser dito?, que é um, que igual
ao de ontem e protótipo do de amanhã. E
neste dia, diz-se, Shakespeare escreveu Rei Lear e Macbeth -- personagens heroicos e compensatórios do desafortunado autor; a primeira tragédia pior do
que a segunda; e neste dia redundante, circular, Shakespeare constatou que a)
era um homem inglês b) pequeno, irrelevante... e c) da irrelevância da maioria.
Do homem relevante foi dito que criou este dia em seis dias e ponto. De um
homem relevante, uma única obra. O irrelevante espera – glória, possivelmente –,
mas seja o que for, não chega; se não chegou, não chegará; e se este dia sucede
assim é porque assim é, é porque é natural.
Diário P.II, IV, do único dia
Dois Batistas, doidos, primos, primos meus também. Um de loucura mansa,
doce, de vaca, de céu; outro, loucura de espernear, gritar, bater, de quem tem
fome, de inferno. No céu, a ação de contemplar; no inferno, rugir, rosnar. Por
sorte, não me chamam Batista.
Diário P.II, V, do único dia
O ônibus passou no seu horário habitual, mas parou, esperou, o motorista
é meu amigo; ainda preciso correr com os tênis nas mãos e pés descalços. E
isto todo dia. Acordo sobressaltado. Não há hora, portanto, não há o que
perder.
Diário P. II, VI, do único dia
Uma carreta na rua central da cidade. Estremece, balança: ela e as
casas. Uma moça grita "vai bater", "bateu",
"volta", a moça segura uma criança que começa a chorar. A cena é
cômica, as instruções, precisas; tal como ser passageiro em um avião e alertar
ao piloto "dá à ré". A
carreta, neste dia, leva consigo postes e fios elétricos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário