domingo, 16 de março de 2014

Espectro


O cheiro de pólvora continua intenso. A dois metros de onde estou jaz o corpo, paralisado e sem vida. Uma poça de sangue rodeia sua cabeça, sangue escuro. O longo tempo decorrido me faz perceber as mudanças de estado: o líquido petrificando, bem como o corpo. Perguntam-se — pois já não podem me perguntar —  do causador.  Pensam no revólver calibre 38, mas ele é um mero figurante. Aliás, não me aporrinhem com a falta de criatividade. A causa é complexa, quiçá romântica. Enfim, não estou aqui para conjeturar sobre motivos dúbios que o impeliram a ação. Importante é o corpo, o reles corpo, o meu corpo.

Na casa encontra-se apenas Runa — a cadela de estimação. Os familiares viajaram ontem e os amigos não telefonam há meses. E Runa, pobrezinha, está com fome. 

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