O cheiro de pólvora continua
intenso. A dois metros de onde estou jaz o corpo, paralisado e sem vida. Uma
poça de sangue rodeia sua cabeça, sangue escuro. O longo tempo decorrido me faz perceber as mudanças de estado: o líquido petrificando, bem como o corpo. Perguntam-se — pois
já não podem me perguntar — do causador.
Pensam no revólver calibre 38, mas ele é um mero figurante. Aliás, não
me aporrinhem com a falta de criatividade. A causa é complexa, quiçá romântica.
Enfim, não estou aqui para conjeturar sobre motivos dúbios que o impeliram a
ação. Importante é o corpo, o reles corpo, o meu corpo.
Na casa encontra-se apenas Runa — a
cadela de estimação. Os familiares viajaram ontem e os amigos não telefonam há meses. E Runa, pobrezinha, está com fome.
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